Profundidade de campo costuma ser ensinada com uma regra simples:
abra a lente para desfocar o fundo; feche a lente para deixar mais coisas nítidas.
A regra ajuda no começo.
O problema aparece quando ela vira a explicação inteira.
Abertura realmente interfere bastante na profundidade de campo, mas a fotografia também muda conforme:
- a distância entre câmera e assunto;
- o enquadramento e a magnificação do assunto;
- a relação entre assunto e fundo;
- a distância focal usada para produzir aquele enquadramento;
- o tamanho do sensor, quando comparamos imagens equivalentes;
- o tamanho em que a fotografia será vista.
Por isso, comprar uma lente f/1.4 não é a única maneira de desfocar um fundo.
Da mesma forma, fechar até f/16 ou f/22 não garante que uma paisagem ficará simplesmente “mais nítida”.
A pergunta mais útil é outra:
quanto da cena precisa continuar legível e quanto pode desaparecer no desfoque?
É essa decisão que deveria comandar a profundidade de campo.
Neste artigo
Profundidade de campo não é a mesma coisa que fundo desfocado
Primeiro vale separar dois conceitos.
Quando você foca numa pessoa, objeto ou ponto da paisagem, existe um plano em que o foco é mais preciso.
À frente e atrás dele existe uma região que ainda parece suficientemente nítida para nossos olhos.
Essa região é a profundidade de campo.
A Canon define justamente a profundidade de campo como a área que aparece claramente em foco e destaca que abertura, posição de foco e distância de captura estão entre os fatores que a alteram.
Isso não significa que tudo dentro dessa faixa esteja matematicamente focado da mesma maneira.
Estamos falando de nitidez aceitável.
E aí entra outro conceito.
Desfoque do fundo
É o quanto aquilo que ficou fora da profundidade de campo se dissolve visualmente.
Você pode ter duas fotografias com profundidades de campo parecidas e fundos bastante diferentes.
A distância do fundo, o enquadramento e a lente podem mudar muito a aparência da área desfocada.
Portanto:
profundidade de campo descreve a região aceitavelmente nítida.
Desfoque descreve o que acontece fora dela.
São relacionados, mas não são exatamente a mesma coisa.
E bokeh também não é sinônimo de profundidade de campo
Bokeh é outro termo jogado no mesmo saco.
Ele se refere principalmente à aparência das áreas fora de foco.
Um fundo pode ficar bastante desfocado e apresentar transições suaves.
Outro pode mostrar círculos, contornos ou texturas mais nervosas.
Isso depende também do desenho óptico da lente, diafragma e características da cena.
Portanto:
- pouca profundidade de campo não garante bokeh bonito;
- bastante desfoque não significa automaticamente uma fotografia melhor;
- uma lente cara não substitui um fundo mal escolhido.
Antes de tentar produzir “mais bokeh”, vale olhar o que existe atrás do assunto.
A abertura manda bastante, mas não manda sozinha
Mantendo as outras condições iguais, uma abertura maior produz profundidade de campo menor.
Por exemplo:
f/2 tende a produzir uma faixa de nitidez menor que f/8 na mesma situação.
E o número continua confundindo quem está começando:
- f/1.8 é uma abertura grande;
- f/2.8 é menor;
- f/5.6 é menor ainda;
- f/11 é bastante fechada.
A Canon confirma essa relação: quanto maior a abertura física, representada por um número f menor, mais rasa tende a ser a profundidade de campo.
Só que abrir a lente também altera a exposição.
Fechá-la também.
Então profundidade de campo conversa diretamente com velocidade e ISO.
Se você fecha de f/2.8 para f/8, por exemplo, deixa entrar muito menos luz e terá de compensar de alguma forma.
É por isso que abertura não deveria ser ajustada isoladamente sem observar o restante da fotografia.
A distância entre a câmera e o assunto pode mudar tudo
Este é provavelmente o controle gratuito mais ignorado.
Mantendo as demais condições comparáveis:
quanto mais perto você foca, menor tende a ficar a profundidade de campo.
A Canon também destaca que aproximar a câmera do assunto reduz a profundidade de campo, enquanto distâncias maiores tendem a aumentá-la.
Faça um teste simples.
Fotografe um objeto sobre uma mesa.
Primeiro, relativamente longe.
Depois aproxime-se bastante e refaça a fotografia com a mesma abertura.
Você verá que a faixa que parece nítida fica muito mais crítica na fotografia próxima.
É por isso que fotografia macro pode ter profundidade de campo extremamente pequena mesmo quando a lente não está totalmente aberta.
Chegar mais perto pode desfocar mais que simplesmente abrir outro stop.
Mas existe uma consequência.
Aproximar-se também muda enquadramento e perspectiva.
Então não existe um botão isolado chamado “mais desfoque”.
Existe uma combinação de escolhas.
Distância da câmera ao assunto e distância do assunto ao fundo não são a mesma coisa
Essa distinção é muito útil em retratos.
Imagine uma pessoa praticamente encostada numa parede.
Você abre a lente.
O fundo até pode suavizar, mas continua muito próximo da região focalizada.
Agora afaste a pessoa vários metros daquela parede.
Sem trocar de câmera e sem comprar outra lente, o fundo passa a ficar muito mais distante do plano de foco e pode aparecer muito mais dissolvido.
Portanto, antes de concluir:
“Minha lente não desfoca o suficiente.”
tente:
afastar o assunto do fundo.
É uma das alterações mais eficientes que você pode fazer sem gastar nada.
E repare na diferença conceitual.
A distância câmera → assunto interfere diretamente na profundidade de campo.
A distância assunto → fundo interfere fortemente em quanto aquele fundo aparecerá desfocado.
Juntar as duas coisas numa única regra esconde justamente a parte mais útil.
Antes de comprar uma f/1.4, afaste a pessoa da parede
Esse é um bom exemplo de como fotografia não precisa começar na loja.
Imagine um retrato feito com uma lente f/2.8.
A pessoa está colada numa parede cheia de detalhes.
O fundo continua chamando atenção.
Você poderia comprar uma f/1.4.
Mas há outra possibilidade:
- afaste a pessoa da parede;
- aproxime-se até onde o enquadramento continua adequado;
- procure um fundo mais distante;
- escolha um ângulo em que haja menos informação atrás.
A fotografia pode mudar radicalmente.
Uma lente mais clara oferece outras vantagens e pode produzir profundidade ainda menor, claro.
O ponto é outro:
não transforme um problema de posição em um problema de equipamento.
Distância focal é mais complicada do que “tele desfoca, grande-angular não”
Na prática, uma teleobjetiva costuma produzir fundos muito suaves.
É fácil então concluir:
quanto maior a distância focal, menor a profundidade de campo.
Só que essa comparação precisa dizer o que permaneceu igual.
Se você fica exatamente na mesma posição, mantém a abertura e troca uma lente curta por uma muito mais longa, aumenta bastante a magnificação do assunto e a profundidade de campo diminui.
Mas se você muda a distância da câmera para manter o mesmo enquadramento do assunto, a profundidade de campo total pode ficar muito mais parecida do que a regra simples sugere.
O Cambridge in Colour demonstra que, mantendo aproximadamente a mesma magnificação do assunto, a profundidade de campo pode permanecer quase constante entre várias distâncias focais, embora perspectiva e aparência do fundo mudem bastante.
Isso explica por que duas fotos podem ter o assunto do mesmo tamanho, mas parecer muito diferentes.
Uma teleobjetiva registra uma porção menor do fundo e a amplia dentro do enquadramento.
O fundo pode parecer maior, mais próximo e mais desfocado.
Uma grande-angular inclui muito mais ambiente.
Portanto, não pense apenas:
“85 mm desfoca mais que 35 mm.”
Pense:
“que distância, enquadramento e relação com o fundo cada lente está me obrigando a usar?”
Essa é uma comparação mais útil.
Sensor maior produz menos profundidade de campo?
Depende de como fazemos a comparação.
O tamanho do sensor sozinho não possui um controle chamado “desfoque”.
Mas, para produzir o mesmo enquadramento e perspectiva em formatos diferentes, uma câmera com sensor maior normalmente exige uma distância focal maior.
Mantendo o mesmo número f, isso tende a produzir profundidade de campo menor no formato maior.
O Cambridge in Colour mostra justamente essa consequência ao comparar sensores mantendo perspectiva e enquadramento equivalentes: sensores maiores exigem ajustes diferentes de distância focal e abertura para reproduzir a mesma profundidade de campo.
Por isso é razoável dizer que uma full frame oferece mais facilidade para produzir profundidade rasa que um sensor menor quando a comparação mantém a imagem equivalente.
Mas isso não significa:
full frame sempre desfoca e APS-C não.
Muito menos:
sensor maior sempre produz fotografia melhor.
Uma APS-C com uma lente adequada pode produzir fundos extremamente suaves.
Um celular pode produzir desfoque óptico em determinadas distâncias.
E uma full frame em f/11 fotografando algo distante pode ter enorme profundidade de campo.
O sensor participa da combinação.
Não decide sozinho.
Profundidade de campo pequena demais também estraga retrato
O desfoque ganhou tamanho valor estético que às vezes o objetivo vira:
desfocar o máximo possível.
Isso pode sair pela culatra.
Imagine um retrato de rosto em ângulo.
Você fotografa muito perto em f/1.2.
Um olho fica perfeitamente nítido.
O outro já começa a escapar.
A ponta do nariz perde definição.
Parte importante do rosto some da faixa aceitavelmente nítida.
Talvez seja exatamente o efeito que você deseja.
Mas se a intenção era manter os dois olhos claros, a profundidade de campo ficou pequena demais.
Portanto:
a maior abertura disponível não é automaticamente a melhor abertura para retrato.
Escolha pela quantidade de rosto que precisa permanecer nítida.
Não pela inscrição mais impressionante na lente.
Em grupos, o problema pode não ser a abertura
Agora imagine cinco pessoas.
Três estão numa linha.
Duas ficaram um passo à frente.
Você fotografa com profundidade de campo pequena.
As pessoas do segundo plano ficam suaves.
A reação imediata pode ser fechar bastante a lente.
Isso ajuda.
Mas há outra solução:
organizar melhor o grupo em relação ao plano de foco.
Se todos os rostos estiverem aproximadamente à mesma distância da câmera, você precisa de menos profundidade de campo para mantê-los aceitavelmente nítidos.
Portanto, em grupos:
- observe se as pessoas estão em profundidades muito diferentes;
- organize os rostos em planos próximos quando possível;
- escolha uma abertura que ofereça margem suficiente;
- confira a fotografia ampliada antes de encerrar a sessão.
Às vezes o problema não é “f/4 versus f/8”.
É a geometria da cena.
O fundo desfocado também pode retirar informação importante
O artigo anterior já tinha uma boa ideia que vale preservar.
Desfocar pode organizar uma cena.
Uma rua cheia de placas, carros, postes ou objetos pode competir com a pessoa fotografada.
Reduzir essa informação visual ajuda o assunto a aparecer.
Mas há fotografias em que o fundo é informação.
Por exemplo:
- fotografia documental;
- retrato ambiental;
- arquitetura;
- fotografia de rua;
- viagem;
- paisagem;
- contexto de trabalho.
Imagine fotografar um artesão dentro da oficina.
Se você transforma todas as ferramentas, bancada e ambiente numa mancha irreconhecível, talvez consiga um retrato bonito.
Também pode eliminar justamente o que explicava quem aquela pessoa era.
desfoque limpa. E às vezes limpa informação demais.
Por isso a pergunta anterior continua valendo:
o fundo está atrapalhando ou está contando alguma coisa?
Paisagem não significa simplesmente f/16 ou f/22
Outra receita clássica:
“Para paisagem, feche bastante a abertura para deixar tudo nítido.”
Existe uma parte correta.
Aberturas menores aumentam profundidade de campo.
Mas continuar fechando indefinidamente cobra um preço.
Quando a abertura fica muito pequena, a difração começa a reduzir definição fina.
A Nikon explica esse compromisso ao tratar de focus stacking: fechar muito a abertura aumenta profundidade, mas a difração pode diminuir a definição, razão pela qual técnicas de empilhamento de foco podem produzir mais profundidade sem exigir aberturas extremas.
Isso não significa:
f/22 é proibido.
Há situações em que ele pode ser a escolha necessária ou deliberada.
Significa apenas:
mais profundidade de campo e mais nitidez não são exatamente a mesma coisa.
O ponto em que a difração começa a importar visualmente varia com:
- lente;
- sensor;
- resolução;
- tamanho final da imagem;
- quantidade de detalhe necessária.
Portanto, não existe um número mágico universal.
Em paisagem, onde você foca também importa
Imagine:
uma pedra muito próxima;
um campo no meio;
montanhas no horizonte.
Não basta escolher f/11 e esperar que a câmera resolva tudo.
A posição do foco determina como aquela profundidade de campo será distribuída pela cena.
Em algumas situações, focar cuidadosamente em uma distância intermediária pode aproveitar melhor a faixa de nitidez disponível do que simplesmente focar no infinito.
É daí que vem o conceito de distância hiperfocal.
Você não precisa transformar toda paisagem numa conta.
Mas vale entender a ideia:
a abertura determina quanto de profundidade você possui; a posição do foco determina onde essa profundidade será colocada.
Essa segunda parte costuma ser esquecida.
Macro mostra o limite da estratégia de “fechar mais”
Quanto mais você se aproxima de uma escala macro, mais crítica a profundidade de campo fica.
Uma flor, inseto, joia ou pequeno objeto pode ocupar boa parte do quadro e ainda apresentar apenas uma estreita faixa nítida.
A primeira tentativa costuma ser:
fechar mais a lente.
Funciona até certo ponto.
Depois aparecem consequências:
- menos luz;
- velocidades mais baixas;
- necessidade de flash ou tripé;
- difração;
- ainda assim, profundidade insuficiente.
É justamente nesse cenário que o focus stacking se torna interessante.
Quando a abertura não resolve, mude a técnica
Focus stacking consiste em produzir várias fotografias com o foco deslocado progressivamente pela cena e depois combinar as regiões nítidas.
A Nikon descreve a técnica exatamente dessa maneira e observa que ela permite aumentar a profundidade de campo sem precisar fechar a abertura até níveis em que a difração comprometa a definição.
Imagine fotografar um pequeno relógio.
Você pode fazer:
- uma fotografia focando a parte frontal;
- outra um pouco mais atrás;
- outra no centro;
- outras avançando até a região mais distante.
Depois, as zonas nítidas são reunidas.
Isso revela uma ideia importante:
quando uma variável chegou ao limite, a solução pode ser mudar a técnica em vez de continuar forçando a mesma variável.
É uma lição que serve para muito mais que profundidade de campo.
Focus stacking não é solução para qualquer cena
Também há limitações.
Se o assunto se move entre os quadros, a combinação pode criar artefatos.
Uma flor balançando ao vento já pode complicar.
Um inseto andando, mais ainda.
A própria Nikon alerta que movimento durante a sequência pode impedir uma combinação limpa das imagens.
Portanto, focus stacking funciona especialmente bem quando:
- assunto permanece relativamente imóvel;
- câmera está estável;
- iluminação não muda bruscamente;
- você consegue controlar a sequência.
É uma ferramenta.
Não um botão de “deixar tudo nítido”.
No celular existem dois tipos de desfoque acontecendo
Celulares complicaram ainda mais a discussão porque o desfoque pode vir de duas fontes.
Desfoque óptico
Existe fisicamente durante a captura.
Depende de:
- lente;
- tamanho do sensor;
- distância até o assunto;
- distância até o fundo;
- enquadramento.
Desfoque computacional
O aparelho estima informações de profundidade, identifica o assunto e acrescenta ou modifica o desfoque por software.
A Apple, por exemplo, permite ajustar depois da fotografia tanto a intensidade do efeito de profundidade quanto, em aparelhos compatíveis, o próprio ponto focal de retratos.
Isso seria impossível se o resultado dependesse exclusivamente da profundidade de campo óptica registrada pela lente.
Portanto, quando um celular mostra algo como f/1.4 dentro do controle de Retrato, não devemos interpretar esse número exatamente como se o pequeno conjunto óptico tivesse fisicamente se transformado numa lente full frame f/1.4.
Ele está representando a intensidade de um efeito de profundidade.
Mesmo no celular, arrumar a cena antes continua valendo
O modo Retrato pode produzir um fundo muito convincente.
Mas não transforma composição ruim em composição boa.
Se a pessoa está:
- colada numa parede;
- com um poste saindo da cabeça;
- diante de um fundo extremamente confuso;
- misturada a elementos transparentes ou muito finos,
o processamento terá uma tarefa mais complicada e a fotografia pode continuar visualmente ruim mesmo com bastante desfoque.
Portanto, as mesmas decisões continuam úteis:
olhe o fundo, mude de posição e crie separação física quando puder.
Computação deve ajudar a fotografia.
Não servir como autorização para ignorar a cena.
O que ajustar primeiro em cada situação?
Em vez de decorar uma única regra de abertura, use o problema como ponto de partida.
| Se você quer… | Experimente primeiro… |
|---|---|
| Isolar uma pessoa do fundo | Afastar a pessoa do fundo e ajustar a distância câmera-assunto |
| Mais desfoque sem comprar lente | Aproximar-se, quando o enquadramento permitir, e procurar fundo mais distante |
| Manter os dois olhos nítidos | Fechar moderadamente a abertura ou aumentar um pouco a distância |
| Fotografar um grupo | Colocar rostos em profundidades semelhantes e aumentar a margem de DoF |
| Mostrar ambiente num retrato | Evitar profundidade rasa demais |
| Paisagem com primeiro plano e fundo | Escolher abertura e posição de foco em conjunto |
| Aumentar profundidade sem perder muita definição por difração | Considerar focus stacking quando a cena permitir |
| Macro com assunto inteiro nítido | Focus stacking pode funcionar melhor que fechar excessivamente a lente |
| Desfocar no celular | Criar separação real e depois usar o efeito computacional quando necessário |
A tabela não substitui a prática.
Mas mostra por que “use f/1.8 para retrato e f/11 para paisagem” é apenas o começo.
Um exercício simples mostra mais que decorar números
Escolha um objeto e um fundo com alguma textura.
Mantenha a mesma abertura.
Faça uma foto com o objeto relativamente perto do fundo.
Depois:
- afaste o objeto bastante do fundo;
- fotografe novamente;
- aproxime a câmera do objeto mantendo um enquadramento coerente;
- faça outra fotografia;
- só depois altere a abertura e compare.
Observe o que aconteceu com:
- o assunto;
- a faixa aparentemente nítida;
- o fundo;
- a perspectiva;
- a quantidade de informação visual.
Esse teste ajuda a perceber que abertura é apenas uma das maneiras de controlar a imagem.
Não escolha profundidade de campo olhando apenas para o fundo
Esse talvez seja o erro mais comum.
O fotógrafo olha para o desfoque e pergunta:
“ficou cremoso?”
Antes deveria perguntar:
“o que precisava estar nítido ficou nítido?”
Num retrato:
os olhos estão como deveriam?
Num produto:
marca, textura e detalhe importante continuam legíveis?
Numa paisagem:
o primeiro plano faz parte da fotografia ou virou uma mancha?
Numa foto documental:
o contexto que explicava a cena desapareceu?
Profundidade de campo não deveria ser julgada apenas pelo que ela elimina.
Também precisa ser julgada pelo que preserva.
Desfoque não é sinal automático de fotografia profissional
Celulares aprenderam a produzir fundos muito suaves.
Lentes baratas podem desfocar bastante em condições adequadas.
Softwares conseguem acrescentar desfoque depois.
Portanto, fundo desfocado deixou de ser qualquer prova de domínio fotográfico.
A decisão é que continua importando.
Às vezes a fotografia ganha força quando o fundo desaparece.
Às vezes ganha quando permanece legível.
Às vezes um pouco de contexto é mais interessante que uma mancha perfeita.
E às vezes a melhor decisão é justamente fechar a lente e permitir que o espectador explore vários planos da imagem.
Profundidade de campo é uma decisão sobre informação
Abertura importa.
Mas ela não trabalha sozinha.
Distância importa.
Enquadramento importa.
A relação entre assunto e fundo importa.
O tamanho do sensor pode mudar as combinações necessárias.
A posição do foco importa.
E o destino da fotografia também interfere no que consideramos nitidez aceitável. O próprio conceito tradicional de profundidade de campo depende da percepção do observador, do tamanho de saída e da distância de visualização.
Por isso, não existe uma profundidade de campo “certa” antes de existir uma fotografia.
Existe uma intenção.
Se o ambiente está atrapalhando, reduza sua presença.
Se o ambiente explica a cena, preserve-o.
Se a abertura não consegue oferecer tudo nítido sem cobrar definição por difração, considere outra técnica.
E se você está prestes a comprar outra lente apenas para conseguir mais desfoque, experimente primeiro mudar sua posição e a posição do assunto.
A regra que vale guardar é esta:
profundidade de campo não serve para produzir o máximo de desfoque. Serve para decidir quanta informação visual precisa continuar disponível.
O fundo pode desaparecer.
Mas só quando a fotografia realmente ganha alguma coisa com isso.