Enquadramento e ângulo na fotografia: por que mudar de posição muda tanto a foto?

Às vezes a cena está boa, a luz funciona e o assunto é interessante, mas a fotografia continua parecendo errada.

Antes de culpar a câmera ou procurar outra lente, experimente uma coisa mais simples:

mude de posição.

Dê um passo para o lado. Abaixe a câmera. Afaste-se. Aproxime-se. Depois compare.

Enquadramento e ângulo na fotografia não servem apenas para deixar o registro “mais bonito”. Eles determinam o que aparece, o que desaparece, como os objetos se relacionam e até a impressão de tamanho e distância dentro da imagem.

O ponto mais importante é este:

mudar a posição da câmera pode alterar a fotografia mais profundamente do que simplesmente aplicar zoom.

Enquadramento, ângulo e perspectiva não são a mesma coisa

Esses conceitos costumam aparecer misturados, mas vale separá-los.

Enquadramento é a escolha do que fica dentro e fora da fotografia.

Ângulo é a posição e orientação da câmera em relação ao assunto.

Perspectiva envolve a relação espacial aparente entre os elementos da cena.

Essa diferença parece teórica até você fazer um teste.

Fotografe uma pessoa com uma árvore exatamente atrás dela.

Agora dê dois passos para a direita e fotografe novamente.

A pessoa continua no mesmo lugar. A árvore também.

Mas a relação entre as duas mudou completamente dentro da fotografia.

Foi a posição da câmera que mudou a imagem.

Antes de fotografar, olhe para as bordas

Uma das formas mais simples de melhorar o enquadramento é parar de observar apenas o assunto principal.

A câmera registra o quadro inteiro.

Isso inclui:

  • postes;
  • lixeiras;
  • pessoas cortadas;
  • placas;
  • objetos muito claros;
  • galhos;
  • fios;
  • manchas de cor;
  • partes de outros objetos entrando pelas bordas.

É comum perceber esses elementos somente depois da fotografia.

Por isso, antes de apertar o botão, faça uma varredura rápida pelas quatro bordas do visor.

Se alguma coisa estiver competindo com o assunto, nem sempre será necessário editar depois.

Às vezes basta dar um passo para o lado.

A própria Adobe resume uma parte importante da composição como a decisão de incluir ou excluir elementos do quadro e recomenda mudar o ponto de vista em vez de aceitar automaticamente a primeira composição encontrada.

Um passo para o lado pode resolver mais que um corte depois

Imagine um retrato feito na rua.

Atrás da pessoa existe uma placa vermelha.

Você pode fotografar e depois tentar cortar a placa.

Mas talvez o corte elimine parte do ambiente que você queria preservar.

Outra possibilidade é deslocar a câmera alguns centímetros ou alguns passos até que a placa fique escondida atrás da pessoa ou saia completamente do enquadramento.

Essa pequena mudança preserva mais informação da fotografia original.

O mesmo raciocínio funciona com:

  • postes aparentemente saindo da cabeça;
  • árvores sobrepostas ao rosto;
  • pessoas ao fundo;
  • objetos muito luminosos;
  • reflexos indesejados.

Antes de pensar em corrigir a composição na edição, veja se é possível corrigir a posição da câmera.

Foto sem profundidade? Procure primeiro plano, meio e fundo

Uma cena tridimensional acaba registrada numa superfície bidimensional.

Uma das maneiras de transmitir profundidade é organizar elementos em distâncias diferentes.

Você pode ter:

  • primeiro plano: algo próximo da câmera;
  • plano intermediário: o assunto principal;
  • fundo: elementos mais distantes.

A Adobe destaca justamente a relação entre primeiro plano, plano intermediário e fundo como um dos elementos que ajudam a transmitir profundidade e perspectiva.

Isso explica por que uma fotografia pode mudar bastante quando você abaixa a câmera e inclui algo próximo.

Uma pedra, uma planta, uma faixa de chão ou uma sombra no primeiro plano pode criar uma sensação de profundidade que não existia quando tudo era fotografado da altura dos olhos.

Mas o primeiro plano não deve ser colocado apenas porque uma regra disse que ele precisa existir.

Se ele não ajuda a fotografia, pode virar apenas mais uma distração.

Fotografar de cima ou de baixo não significa automaticamente “fraqueza” ou “poder”

Existe uma explicação muito repetida segundo a qual fotografar de baixo faz o assunto parecer poderoso e fotografar de cima faz parecer fraco.

Isso pode acontecer.

Mas reduzir todo ângulo a essa interpretação é simplificar demais.

Abaixar a câmera pode servir para:

  • limpar o fundo;
  • incluir o céu;
  • destacar linhas;
  • aproximar o primeiro plano;
  • mostrar uma criança na altura dos olhos;
  • aumentar a sensação de altura de uma construção.

Levantar a câmera pode servir para:

  • mostrar a organização de uma mesa;
  • reduzir elementos do fundo;
  • revelar formas no chão;
  • fotografar comida;
  • destacar padrões e geometria.

Portanto, a pergunta mais útil não é:

“qual emoção este ângulo obrigatoriamente transmite?”

Pergunte:

“o que este ponto de vista passou a mostrar ou esconder?”

Essa resposta costuma ser muito mais concreta.

Fotografar crianças e animais na altura deles muda a relação com a cena

Uma criança fotografada de cima aparece como normalmente é vista por um adulto.

Abaixar a câmera até a altura dela muda essa relação.

O fundo também muda.

Objetos próximos do chão ganham importância. O horizonte se desloca. O ambiente passa a ser mostrado de um ponto de vista menos comum para um adulto.

O mesmo vale para animais de estimação.

Não é necessário considerar um ângulo baixo automaticamente superior.

O importante é perceber que a altura da câmera é uma decisão, e não apenas consequência da altura de quem fotografa.

Prédio parece estar caindo para trás? Observe a inclinação da câmera

Fotografia de arquitetura apresenta um exemplo muito claro.

Você está diante de um prédio alto.

Para conseguir colocar o topo no quadro, inclina o celular ou a câmera para cima.

As linhas verticais começam a convergir.

O prédio parece estreitar em direção ao topo.

Isso não significa necessariamente defeito da lente.

É consequência da relação entre a câmera inclinada e a geometria da cena.

A Apple inclusive oferece ferramentas para alinhar fotografias e ajustar perspectiva horizontal e vertical depois da captura no iPhone.

Uma alternativa durante a fotografia é afastar-se, quando houver espaço, e tentar manter a câmera mais nivelada.

Nem sempre será possível.

E nem sempre você deve corrigir a convergência, porque ela também pode ser utilizada intencionalmente.

A questão é reconhecer quando ocorreu por escolha e quando aconteceu sem você perceber.

A grade ajuda, mas não decide a fotografia

Ativar a grade no celular pode ser bastante útil.

Ela ajuda principalmente a perceber:

  • horizonte inclinado;
  • verticalidade;
  • alinhamento;
  • posição do assunto;
  • distribuição de espaço.

No iPhone atual, a Apple mantém opções de Grade e Nível nas ferramentas de câmera.

Nos Galaxy atuais, a Samsung também oferece guias de composição com linhas de grade e, dependendo do modelo e versão do sistema, recurso de nivelamento.

Mas a grade não deve virar uma máquina de obedecer à regra dos terços.

Ela é uma referência visual.

O assunto precisa ficar fora do centro?

Não.

Centralizar não é erro.

Descentralizar também não é garantia de boa composição.

A regra dos terços é uma ferramenta de organização. Ela divide mentalmente o quadro e sugere posições que muitas vezes produzem bom equilíbrio visual. Adobe e Samsung continuam ensinando a técnica como uma referência para composição.

Mas existem situações em que o centro funciona muito bem:

  • simetria;
  • retratos frontais;
  • corredores;
  • portas;
  • reflexos;
  • padrões;
  • cenas minimalistas;
  • composições deliberadamente estáticas.

O problema não é centralizar.

O problema é centralizar sem perceber que havia outras possibilidades.

Simetria funciona melhor quando parece intencional

Corredores, escadas, fachadas, pontes, portas e reflexos frequentemente oferecem simetria.

Nesses casos, pequenos desalinhamentos ficam muito visíveis.

Se você decidiu construir uma fotografia simétrica, vale observar cuidadosamente:

  • centro;
  • horizonte;
  • linhas verticais;
  • altura da câmera;
  • distâncias laterais.

A grade e o nível do celular podem ajudar bastante nesse tipo de fotografia.

Mas existe uma diferença entre uma fotografia perfeitamente simétrica e uma fotografia quase simétrica.

A segunda pode parecer apenas desalinhada quando não há outro elemento deixando clara a intenção.

O fundo está grande ou pequeno demais? Talvez o problema seja sua distância

Aqui aparece uma das partes mais mal explicadas quando se fala em ângulo e perspectiva.

Imagine um retrato com uma montanha ao fundo.

Você pode fotografar a pessoa de perto com uma lente mais aberta.

Depois pode se afastar bastante e usar uma distância focal maior para manter a pessoa ocupando tamanho parecido no quadro.

Na segunda fotografia, a montanha pode parecer muito maior em relação à pessoa.

Isso costuma ser chamado de compressão de perspectiva da teleobjetiva.

Mas a Sony faz uma ressalva técnica importante: essa aparência não é causada simplesmente pela lente. Ela ocorre porque o fotógrafo muda sua distância em relação aos elementos da cena.

A lente permite enquadrar de outra forma a partir daquela nova posição.

Essa distinção muda a maneira de fotografar.

Trocar a lente e mudar de lugar produzem efeitos diferentes

Se você permanecer exatamente no mesmo lugar e trocar uma lente aberta por uma mais longa, muda principalmente o ângulo de visão e o enquadramento.

A relação espacial entre os elementos, vista daquela posição, permanece essencialmente a mesma.

Quando você se desloca, passa a observar os objetos a partir de outra relação de distâncias.

Então a perspectiva muda.

É por isso que “dar zoom” e “andar para a frente” não são equivalentes.

A Sony explica que distâncias focais menores fornecem ângulos de visão mais amplos, enquanto distâncias focais maiores ampliam uma área menor da cena. A perspectiva aparente, porém, está fortemente ligada à posição de onde a fotografia é feita.

Essa é uma das razões para pensar primeiro:

de onde quero fotografar?

e depois:

qual lente ou câmera me permite enquadrar a cena a partir dali?

Isso também explica rostos estranhos em fotos muito próximas

Faça um retrato colocando o celular muito próximo do rosto.

O nariz fica muito mais perto da câmera que as orelhas.

Essa diferença relativa de distância pode alterar bastante as proporções aparentes.

Agora afaste a câmera.

As distâncias entre câmera, nariz, olhos e orelhas tornam-se proporcionalmente mais parecidas.

O rosto tende a parecer menos exagerado.

Se você quiser manter um enquadramento fechado depois de se afastar, pode usar uma câmera com ângulo de visão mais estreito, quando disponível, ou reenquadrar posteriormente.

Novamente, o fator decisivo para a perspectiva foi principalmente a distância da câmera, não algum efeito mágico de uma lente específica.

Grande angular perto das bordas exige atenção

Lentes grande angulares mostram uma área extensa da cena.

Isso é ótimo para interiores, arquitetura, paisagens e ambientes apertados.

Mas também pode incluir muito mais elementos indesejados no quadro.

A Sony recomenda atenção especial às bordas quando se utiliza grande angular e alerta que pessoas próximas às extremidades podem apresentar distorções perceptíveis em algumas situações.

No celular isso importa bastante porque a câmera ultra-angular convida o usuário a colocar muita coisa na fotografia.

Antes de apertar o botão, percorra visualmente as bordas.

Talvez o problema não esteja no centro da imagem.

Enquadramento fechado ou aberto: pergunte o que precisa ser entendido

Um enquadramento aberto mostra contexto.

Um enquadramento fechado concentra atenção.

Nenhum é melhor por definição.

Imagine alguém trabalhando numa oficina.

Uma fotografia fechada nas mãos pode mostrar detalhe e habilidade.

Um enquadramento mais aberto pode mostrar:

  • pessoa;
  • ferramentas;
  • bancada;
  • ambiente;
  • relação entre esses elementos.

A pergunta deve ser:

o ambiente ajuda a entender a fotografia?

Se ajuda, talvez valha preservá-lo.

Se apenas distrai, aproxime ou mude a posição.

Não corte apenas porque o formato da rede social manda

Outro problema moderno de enquadramento aparece depois da captura.

A mesma fotografia pode precisar funcionar em:

  • tela do celular;
  • site;
  • feed vertical;
  • Story;
  • impressão;
  • miniatura.

Por isso, quando uma fotografia terá vários usos, pode ser útil deixar uma pequena margem ao redor do assunto para permitir recortes posteriores.

Mas isso não significa fotografar tudo muito longe por segurança.

Significa antecipar o destino da imagem quando ele já é conhecido.

A Adobe recomenda considerar o uso final da imagem ainda durante a composição, principalmente quando o quadro precisará receber outros elementos ou formatos posteriormente.

Dá para corrigir um enquadramento ruim depois?

Até certo ponto.

Você pode:

  • cortar;
  • endireitar;
  • ajustar horizonte;
  • corrigir perspectiva;
  • alterar proporção.

Apple e Adobe oferecem atualmente ferramentas para correção de alinhamento e perspectiva depois da captura.

Mas edição não recupera tudo.

Se algo importante ficou fora da fotografia, nenhum corte consegue trazê-lo de volta.

Se você fotografou muito perto e alterou fortemente a perspectiva do rosto, afastar digitalmente depois não recria a visão que teria sido obtida de outra posição.

Por isso, enquadramento continua sendo principalmente uma decisão feita antes do clique.

Quando uma foto não funciona, faça três movimentos antes de desistir

Existe um exercício mais útil que decorar dezenas de regras.

Faça a primeira fotografia como faria normalmente.

Depois, sem mudar o assunto, faça mais três:

1. Mude lateralmente

Dê alguns passos para a esquerda ou direita.

Observe principalmente o fundo e as sobreposições.

2. Mude a altura

Fotografe mais baixo e mais alto.

Veja o que aparece e desaparece atrás do assunto.

3. Mude a distância

Aproxime e depois afaste.

Observe a relação entre assunto, primeiro plano e fundo.

Agora compare as quatro fotografias.

Esse exercício mostra algo que nenhuma definição de “plongée”, “contraplongée” ou regra dos terços consegue ensinar sozinha:

a posição da câmera altera as relações visuais da cena.

Como descobrir o que precisa mudar na sua foto

Se o resultado não estiver funcionando, procure primeiro o problema.

O que incomoda na imagemPrimeiro teste
Fundo cheio de distraçõesMover a câmera lateralmente
Assunto pequeno demaisAproximar ou mudar o enquadramento
Rosto com proporções estranhasAfastar a câmera
Prédio convergindo demaisAfastar e reduzir a inclinação da câmera
Foto muito planaProcurar primeiro plano ou mudar a altura
Horizonte tortoUsar nível ou grade
Fundo parece distante demaisTestar outra distância e reenquadrar
Simetria parece erradaCentralizar e conferir alinhamento
Cena tem informação demaisDecidir o que realmente precisa permanecer no quadro

Não é uma tabela de regras absolutas.

Ela serve para transformar uma sensação vaga de “essa foto não ficou boa” em uma pergunta que você consegue testar.

Afinal, como escolher enquadramento e ângulo na fotografia?

Não existe um melhor ângulo para todas as fotografias.

Existe uma posição que ajuda a mostrar aquilo que você deseja naquela cena.

Antes de fotografar, observe:

  • o que precisa aparecer?
  • o que pode sair?
  • o fundo ajuda ou atrapalha?
  • a altura da câmera favorece a cena?
  • aproximar muda a perspectiva de forma indesejada?
  • preciso mudar de lente ou apenas de lugar?

A última pergunta é especialmente importante.

Muitas vezes o maior salto na fotografia não acontece quando você compra outro equipamento.

Acontece quando percebe que alguns centímetros para o lado, para cima, para baixo, para frente ou para trás podem transformar a relação entre todos os elementos da imagem.

Enquadrar não é apenas colocar o assunto dentro do retângulo.

É escolher de onde aquela fotografia vai existir.

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